As nuances de sair da própria bolha

Viver é criar laços, hábitos e hobbies que pouco a pouco se transformam em uma rotina. Essa rotina começa a se estabelecer tão sorrateiramente que, quando nos damos conta, nos vemos presos em um looping infinito de afazeres e a prática de viver resume-se em apenas sobreviver. Essa inércia apenas fica evidente quando nos damos conta de que existe um mundo de possibilidades fora dessa bolha.

Antes de fazer o meu intercâmbio eu estava estagnado numa zona de conforto totalmente desconfortável: infeliz no trabalho, nos relacionamentos familiares (nem preciso citar os amorosos, pois são inexistentes) e descontente até mesmo com meus hobbies nada apaixonantes. Mas em 2016 eu tive a oportunidade de mudar repentinamente de estado e de emprego. A princípio senti um grande alívio por sair da bolha e começar novas experiências. Porém, conviver com um familiar autoritário de olho em tudo que você faz é desgastante, e o que era para ser libertador, transforma-se numa reclusão. Em apenas 3 meses eu cheguei ao meu limite e retornei para a antiga bolha

Se eu for considerar todos os meus momentos de dúvidas e frustrações, então eu assumiria que durante meus 27 anos estive preso numa bolha com camadas duplas, e estourá-las era o que eu mais precisava. Até que no final de 2018 eu decidi que iria sim para a Inglaterra e em junho deste ano eu realmente consegui tal feito. O primeiro impacto ao chegar em Londres foi de espantamento por medo e por tanta beleza reunida. Eu só pude visualizar a cidade dentro de um ônibus, onde fui do Heathrow Airport até Coventry apenas observando aquelas ruas, casas, arquiteturas, carros e pessoas que mais parecia um cenário de filme. Que sensação única! Eu estava enfim estourando a bolha.

Foram 27 dias de aventura onde pude fazer novas amizades, estudar inglês, conhecer diversos lugares diferentes a cada dia, comer o que eu estivesse afim... Em resumo, pois não tenho como descrever a sensação em palavras, foi um sentimento de liberdade. Mas não apenas por estar fora de casa, fora da rotina, mas por estar numa situação que eu sempre sonhei. Muitos podem não acreditar, visto que eu nunca fui de comentar o bastante sobre isso, mas meu grande sonho de infância era conhecer Londres, e conforme fui crescendo meu sonho era de viver numa cidade realmente grande, e Londres me proporcionou isso por um tempinho. Estava em êxtase porque eu só conseguia pensar: "É isto! Se cada pessoa tem um propósito, o meu é esse!" E pela primeira vez eu não estava sobrevivendo, mas sim vivendo. 

É como enxergar seus sonhos através da bolha - fotos 1 e 2 tiradas no Sky Garden, Londres
Voltei diferente para casa, determinado a mudar minha vida, meus hábitos, minha rotina e definitivamente evitar uma nova bolha. Mas conforme os dias foram passando, mais eu ficava frustrado com tudo ao meu redor, vide minha realidade. E tudo que eu vivo atualmente não está nem perto do que gostaria de fazer. Cheguei inclusive a cogitar iniciar um curso de confeitaria, que sonho em fazer desde quando me conheço por gente. Mas as aulas acontecem às segundas-feiras pela manhã, o que rolaria conflito com meu trabalho, que também me traz uma infelicidade imensurável, e é justamente neste ponto que eu queria tocar.

Ainda criança eu entendi que a sociedade nos molda e os familiares sempre tentam nos empurrar opiniões que sequer foram pedidas. Cansei de ouvir parentes me dizendo que eu precisava estudar num curso elitista que rendesse dinheiro futuramente. E quando perguntavam o que eu queria fazer, sempre batiam na tecla de que primeiro ganhamos dinheiro e depois fazemos o que gostamos. Mas qual o problema de fazermos o que gostamos se é isso que nos traz prazer? É possível ganhar dinheiro justamente fazendo isso. E agora que estou de volta à minha realidade, minha frustração diária é enfrentar pessoas, trabalho, afazeres que não me dão o mínimo de ânimo para levar motivado. Se eu já não estava feliz antes, hoje é que eu tenho certeza do significado de infelicidade.

E como colocar tudo isso para fora sem pessoas nos julgando? A única solução é fazendo terapia, e eu adoraria. Mas com trabalho e sem dinheiro, isso torna-se um desejo tão distante quanto visitar Londres. Me visualizo então como um ser vivo dentro de uma bolha de borracha, e por mais que eu me debata e tente rasgar essa película, consigo fazer apenas pequenos furos que me dão um pouquinho de ar fresco mas logo se fecham, e pouco a pouco vou enxergando a possibilidade de desistir de tudo e simplesmente aguardar o fracasso, sobrevivendo. 

Resolvi escrever esse texto como forma de desabafo e evidenciar que sair da bolha, da zona de conforto, é ótimo e necessário. Mas infelizmente tem um certo fardo para quem não tem o psicológico forte o bastante para suportar o choque cultural reverso. Pois enfrentar a própria realidade é uma batalha constante consigo mesmo, onde quem vai perder será você. 

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