Perdido em Londres


É outubro de 2026. Moro e trabalho no Reino Unido há um ano e meio. O maior feito da minha vida é, ao mesmo tempo, o meu maior peso.

Quando eu estava morando no Brasil, eu não havia encontrado o meu lugar no mundo. Meu trabalho enquanto Assistente Administrativo me deixou traumatizado, resultando em burnout e Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). Delícia, né?

Quando me dei conta de que com meu bacharelado em Jornalismo eu poderia migrar para o marketing, fiz alguns cursos online para me atualizar e me esforcei ao máximo para conseguir me realocar, até que consegui saltar para uma agência como Redator Publicitário e pude começar na área do zero.

Após dois anos eu me mudei para Londres depois de me casar com um britânico e é onde vivo desde então. Apesar do sonho de viver em outro país, principalmente em uma das mais ricas, importantes e requisitadas cidades do mundo, minha mente entrou em parafuso. Estou recomeçando tudo do zero: relacionamento, amigos, trabalho e carreira, cultura, língua... Toda a excitação inicial transmutou para medo e ansiedade e agora virou uma... incerteza? Não digo incerteza por estar em dúvidas se quero continuar no país ou algo assim, porque não é o caso. Esse sentimento que penso ser incerteza é de não entender o que fazer e para onde ir.

Faz um ano que trabalho como caixa, e trabalhar com atendimento ao cliente é algo que detesto, sendo bem honesto, ainda mais convivendo com TAG. Depois de tanto esforço tentando migrar para marketing e finalmente conseguir, regredi na profissão — e tudo bem! O "problema" está na soma de todas mudanças: morar junto com um parceiro pela primeira vez (e de língua e cultura diferentes), conquistar e manter novos amigos, aprender e me dedicar a um novo trabalho em outra língua (e conviver com um time de diferentes nacionalidades), me adaptar ao novo estilo de vida (e me virar economicamente em uma outra moeda), além de outros pormenores.

Não há ingratidão e muito menos arrependimento, apenas uma grande confusão de sentimentos e pensamentos que me deixam extremamente confuso. Digo, como se vive com um esposo? Como soar engraçado em outra língua? Aquela frase foi séria, irônica ou piadoca? Por que envio mil currículos mas ninguém sequer me liga? Vou viver para sempre trabalhando com o que não gosto e recebendo pouco? As amizades aqui são assim mais frias? Vou ter um melhor amigo confidente?

E as perguntas não param. É como se eu tivesse perdido minha personalidade do Brasil e não soubesse quem sou em outro país. É como se eu tivesse desaprendido a viver. Infelizmente me comparo muito com as pessoas — e sei que é um erro — mas eu as vejo sendo "normais", lidando com o bom e o ruim de forma quase que instintiva, e parece que eu não tenho o instinto ou a sabedoria. Tudo que eu faço é pensado 10 vezes ou feito sob minha própria pressão, e nunca soa certo ou bom o suficiente.

No fim de tudo isso, não sinto falta de casa ou do Brasil, sinto falta da minha zona de conforto, por mais que fosse falha. Agora, aos 34 anos, sendo adulto funcional e independente, me vejo como uma criança perdida e dependente de um conforto que se perdeu e tem sido muito difícil encontrá-lo. Onde eu estou e aonde eu quero ir?

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